É fome ou vontade de comer? Especialista ensina a identificar

Aprender a distinguir a fome da vontade de comer. Para orientar nessa questão, que gera dúvidas e ansiedade, PRAZERICES conversou com a Dra. Juliana Orrico, psicóloga especializada em distúrbios alimentares e mindfulness da Clínica Prof. Dr. Filippo Pedrinola, de São Paulo

Juliana Orrico, psicóloga especializada em distúrbio alimentar da Clínica Prof. Dr. Filippo Pedrinola

Qual a diferença entre fome real, emocional e social?

A fome real nada mais é que a fome física, uma reação fisiológica do organismo que se manifesta, por exemplo, com sintomas como dor de cabeça ou roncos. A fome social, por sua vez, é o famoso beliscar. É aquele biscoito que está ali, na sua frente, na mesa. Ou o pacote de salgadinho do filho, que está por perto. Esse é um ato de comer por hábito, de colocar algo na boca muitas vezes sem nem ter uma real vontade. É algo associado ao contexto social. Já a fome emocional ocorre quando o indivíduo come movido pela emoção. Ou seja, por não ter habilidade em lidar com emoções indesejadas como tristeza, medo, raiva e frustração, o sujeito busca no alimento uma forma de sanar aquela dor ou determinada falta.

E isso acaba gerando outros problemas depois, não?

Examente. O problema é que a sensação de prazer, conquistada durante o consumo, é logo depois substituída pela pela culpa, levando a pessoa a comer de maneira punitiva e desregrada, trazendo mais mal estar do que bem-estar.

Como psicólogos podem ajudar nessa questão tão desafiadora?

O trabalho do psicólogo associado ao do nutricionista comportamental é ensinar o paciente a identificar estas fomes. O corpo emite sinalizações de fome real, assim como através de tensões e dores demonstra que algo não está bem. Mas, por estarmos vivendo a era da multi-tarefa, não nos damos conta do que sentimos. Passamos a viver a vida ansiosos com o futuro ou nos culpando pelo passado, deixando assim de agir e perceber o presente. Quando o sujeito assume o papel de observador de si próprio, ele aprende a identificar suas emoções e a lidar com elas. Consegue, então, ser assertivo nas respostas aos estímulos do meio e passa a não mais reagir a determinadas situações.

Como agir diante de tantas tentações, mesmo sem estar com fome? O que fazer naqueles minutos iniciais dessa louca vontade de comer, evitando assim um ataque a caixa de bombons ou à geladeira?

Algumas técnicas são ensinadas ao paciente para lidar com os gatilhos que o levam a comer emocionalmente. Dentro da terapia cognitiva comportamental, ensinamos a aprender a identificar emoções, comportamentos disfuncionais e pensamentos automáticos e, assim, passamos a não mais alimentar diálogo interno que só vem a aumentar a intensidade. Neste instante, penso que o ideal é conseguir identificar as emoções, sensações físicas e pensamentos automáticos e buscar qual a resposta adaptativa melhor naquela situação, pensando que esta pessoa vem trabalhando isto com seu psicólogo.

Como trabalhar a questão da fome emocional? Sozinho é possível ou é necessário procurar ajuda profissional?

Eu considero essencial o acompanhamento multidisciplinar, incluindo psicólogo.

Doces sempre são os mais procurados na hora da “vontade de comer”

O que explica a fome emocional ser, geralmente, por doces e chocolates?

A fome emocional ocorre pela inabilidade de lidar com as emoções indesejadas. Sendo assim, o indivíduo que sente tristeza, raiva, frustração ou medo precisa aliviar este sentimento. Muitas vezes, recorrer à comida parece ser a saída para se sentir bem. Neste instante, não se busca a cenoura e sim o carboidrato e o açúcar que, ao serem ingeridos, aumentam o nível do neurotransmissor dopamina responsável pela sensação de bem-estar. O alimento aqui entra como uma recompensa e um afago emocional.

Esse é um mal que afeta a população no geral ou é um problema maior de quem sofre de excesso de peso?

Acredito que afeta a população no geral, sim. De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), o Brasil registra hoje uma taxa de compulsão alimentar dobrada em relação à média mundial, fora os outros transtornos alimentares e de ansiedade. E, nestes casos, este comportamento alimentar também é presente. O paciente não necessariamente precisa estar acima do peso para apresentar o quadro.

E aquelas fomes específicas que temos do tipo “se eu não comer um chocolate não vou aguentar”. E se você não come, fica três dias na fissura até comer. O que explica isso? Ou nem Freud explica?

Acredito em uma regrinha básica: muita restrição = compulsão. Isto se tratando de ansiedade ou compulsão alimentar. Tudo aquilo que restringimos e é proibido aumenta a vontade por algo específico. Neste caso, a fissura . Fora isso, estes pensamentos do e “e se” são provenientes de erros cognitivos. Ou seja, crenças disfuncionais que criamos e acreditamos e que acabam aumentando a nossa ansiedade e regendo os nossos comportamentos. A crença do “e se eu não comer eu não vou aguentar” dispara vários outros pensamentos e trazendo a ansiedade junto. Desta forma, o que era para ser um ato de prazer, a exemplo do consumo de um chocolate, acaba se transformando em um evento punitivo e ansioso, carregado de culpa.

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